Pe Osnildo Carlos Klann, scj

Desde 2007, o padre Osnildo realiza sua missão dehoniana na República Democrática do Congo e, através de reflexões, notícias e informações, partilha suas experiências missionárias.

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sexta-feira, 8 de junho de 2007

Edição 03

A riqueza das línguas
Não posso esquecer de registrar um aspecto muito interessante e rico da vida desse povo. Aqui, no Congo, se falam vários idiomas. Nessa nossa região, predomina o francês e o swahili ; mas se fala também o lingala e o kicongo. Na missa , por exemplo, eles facilmente trocam de lingua : cantam, a maior parte do tempo, em swahili ; mas misturam cantos em lingala e mesmo em kicongo. Respondem em francês, quando o padre celebra nessa lingua. Os padres também, nas celebrações, às vezes , misturam os idiomas. Falam em swahili,vão para o francês, voltam à lingua local.
Na catedral de Kisangani, segundo me disseram, o padre na missa, fala nas três linguas : francês, lingala e swahili. Na apresentaçâo festiva de domingo passado, também as alunas do Liceu Anuarita, das Irmâs canossianas ( que estão também em Joinville), demonstravam uma facilidade incrivel em trocar de lingua, durante as apresentaçôes dos números artisticos. Faziam isso, com a maior naturalidade. Conversando com a garotada daqui sinto inveja deles em perceber como falam naturalmente o francês e o swahili e mesmo alguns, o lingala.


O ensino
Primaire (primário) : seis anos. Secondaire (secundário) : dois anos de orientaçao e mais quatro anos de cientifico ou literario. Depois vem a faculdade. Os professores ganham uma miséria : 30 para 40 dolares mensais. Os alunos devem pagar uma PRIME (mensalidade de 600 Francos congoleses, para o primàrio, e 1.300 FC para o secundàrio). O dolar está agora na base de 470 FC.
O problema maior é que os alunos nâo dispôem de cadernos, livros, lápis, borracha. Eles vivem pedindo esse material para a gente. E impossivel atender a todos.

Hospital de Referência.
Meu confrade P. Louis Marie pisou num buraco e teve uma entorse. Acabou indo para o hospital. Dia seguinte, fui visità-lo , no hospital de referência de Kisangani. Os religiosos têm uma ala especial. De especial, não tem nada. O capim quase invade a porta de entrada. Ao desembarcar do carro, o Padre Pontien, brincando, me disse : cuidado com as cobras ! Entrando, um choque : janelas quebradas, protegidas com pedaços de madeira. As camas mal arrumadas, pintura desbotada, piso de cimento puro... Mas o que mais choca é que o hospital nâo fornece comida. Os parentes e amigos do paciente tem que preparar o alimento. Por isso, em redor do hospital, as familias dos doentes cozinham as refeiçôes. Nos pequenos fogareiros, à carvâo, no châo de terra, preparam a alimentaçâo, nâo so para o doente, mas tambem para si e para os filhos, que, muitas vezes, devem permenecer também là. Aqui nâo existe dieta especial para os doentes. Comem o que a familia come : feijão, arroz, sombe, mochicha, lituma, às vezes, carne. Dei um giro pelas alas do hospital. É indescritivel. Como, de fato, esse povo sofre. Além de tudo isso, no hospital nâo há remédio, não há gaze para os curativos. Os familiares ou responsáveis devem trazer quase tudo. Não bastasse tudo isso, o acesso para o hospital é de matar qualquer paciente. É so buraco. Inacreditàvel. O governo nem está ai, e a corrupçâo, como em tantos outros paises, engole a economia do país.
Tenho pena desse povo!

Como sofre esse povo!
Um fato, que me contou o Ir. Ioss, responsàvel pela construção do novo Centro D. Grison, revela também o grande sofrimento desse povo. Buta dista uns 325 quilômetros de Kisangani. Là não há energia eletrétrica nem estradas de acesso. Um senhor, amigo desse irmão, de quando em vez, vem a Kisangani, de bicicleta, percorrendo 650 quilômetros, ida e volta, para comprar e levar para là 80 a 100 litros de querosene. Transporta tudo na bicicleta. Imaginou !

As estradas
Por falar em estradas, realmente aqui, nessa regiâo, não existem mais estradas. Para você ter uma idéia, Kisangani tem aproximadamente 900 mil habitantes. As únicas maneiras de sair daqui para ir a outra cidade, mesmo perto, é piroga, canoa, navio ou aviâo, para os trechos mais distantes. Com moto se pode ir até algum vilarejo mais proximo. Mas é muito perigoso por causa dos assaltos. Nâo é so no Rio ou São Paulo que assaltam nas estradas … Dias atràs, o secretàrio provincial, juntamente com um irmão leigo, indo de moto para Opinge, levando o dinheiro do salário dos professores daquele lugarejo e mais algum dinheiro para o velho sacerdote com mais de 80 anos, a 50 quilômetros de Kisangani foram interceptados por dois bandidos que sairam do mato e os obrigaram, com ameaça de arma e de facão, a entregar tudo o que tinham. Nossos confrades ficaram um pouco machucados, mas voltaram para casa, com vida. Para fazer a viagem de Kisangani a Kinshasa, de navio, leva-se aproximadamente 3 semanas. De aviâo, é muito caro, com piroga ou mesmo bateau (navio), é muito lento. De moto è perigoso. O melhor mesmo è ficar em casa..


Um abraço. Até a próxima vez!
P. Osnildo Klann

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