Pe Osnildo Carlos Klann, scj

Desde 2007, o padre Osnildo realiza sua missão dehoniana na República Democrática do Congo e, através de reflexões, notícias e informações, partilha suas experiências missionárias.

Para entrar em contato, escreva para ocklann@yahoo.com.br

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Edição 05

Meus amigos (as),
tenho muitas notícias da semana passada: retiro dos propedeutas, chegada do novo carro para o centro D. Grison (veio de Dubai, Arabia, e levou mais de três meses para chegar aqui); a historia interessante da construção de uma igreja católica em Dubai, que é muçulmano; a visita do presidente do Congo a Kisangani, com a a misteriosa queda de um avião de guerra, Mig, russo, na cabeceira do aeroporto militar, aqui perto de casa;o aniversário, bem celebrado, do diretor do Centro, P. Pontien... Mas não falarei sobre isso.
Vou apresentar-lhes duas reportagens: uma sobre o P. Mateus Buss, que veio para o Congo com o primeiro grupo de brasileiros e está aqui mais de 20 anos; a outra reportagem, sobre a situação conflituosa do leste de Congo, com a denuncia do arcebispo de Bukavu. Para sua informação, somos quatro brasileiros da Congregação dos Padres do SCJ que trabalhamos no Congo. Todos os quatro trabalhamos em Kisangani, em casas diferentes. Pedi para eles escreverem algo sobre suas atividades aqui. P. Mateus foi o primeiro a atender meu pedido. Espero que os outros também escrevam algo para o conhecimento de vocês. Não estou sozinho aqui nessa terra. Tenho mais três colegas brasileiros por perto. Envio a todos meu afetuoso e carinho abraço, bem brasileiro.

A situaçâo no Leste congolês

A situação política no Leste congolês não está clara. Vive-se a psicose de guerra, como denunicou o arcebispo de Bukavo, Dom Francisco Xavier M. Rusengo. Os elementos perturbadores são os ruandeses que se infiltram sistematicamente no territorio congolês, expulsando os habitantes da região para a floresta. É como no Brasil com as invasões de terra. Só que aqui são os ruandeses (os tutsis, no caso) que invadem as propriedades dos congoleses e os expulsam de lá , pois dizem que aquelas terras lhes pertencem. E o exército congolês, como denuncia o arcebispo, não tem forças para defender o povo. Por isso, em maio p.p., aconteceu um macabro massacre da população civil, em Walungu. Segundo Dom Francisco, os banyamulunge ( pronuncia-se "banhamulengue"), isto é, os descendentes de congoleses(as) com ruandeses(as), que habitam a região, são instrumentalizados para provocar a Guerra. Enquanto isso, as suas mulheres e filhos fogem, com medo, para o pais vizinho.
Na denúncia, o arcebispo pergunta, onde estão as autoridades federais, que silenciam diante de toda essa situação ? Textualmente, o bispo pergunta : "Que significa o silêncio das Instituições da Republica, a saber, o Chefe de Estado, o Parlamento, o Governo Central e o Alto Comando militar, diante dos massacres repetidos em Kaniola? Em outros lugares, por causa de um sequestro, mesmo de uma única pessoa, o aparato estatal de seu país se mobiliza. O Governo da Republica Democrática do Congo, diante da ameaça de uma nova guerra e enquanto se perpetram massacres da população civil, em vez de se preocupar com o verdadeiro problema que é de ordem militar e de segurança, nos propõe uma mesa redonda ‘ intercomunitária ‘ . Cumplicidade ou ignorância ?"
O bispo fala de cumplicidade, porque, na época da derrubada de Mobuto, quem veio em socorro de Kabila foram os tutsis, de Ruanda. Depois da guerra, eles ficaram no território congolês e junto com os refugiados do genocídio de Ruanda, que também, residem naquelas regiões do Leste, formam um grupo forte de terroristas, reivindincado aquelas terras para si, contra os congoleses. Ora, o atual governo que teve a ajuda dos tutsis também no caso da derrubada de Mobutu, sente-se constragido a tomar uma posição mais dura contra os tutsis, que pretendem se apossar das terras do Leste congolês. Situação bastante ambigua, complicada e perigosa. Lá vive-se constantemente a tensão de guerra. O bispo continua em suas acusações contra o silêncio das autoridades competendes, fazendo recomendações sérias à Comunidade Intenacional fortemente presente na região : que não digam depois, que não sabiam da realidade. Recomenda à MONUC ( tropas da ONU, no pais) que cumpra sua missão e não compactue com os inimigos, mas proteja, de fato, a população. Aos eleitos do povo (governo federal, regional, deputados etc) recomenda o arcebispo que façam mais pela segurança da população. Ao povo do Leste da Republica Democrática do Congo, o bispo recomenda que abra os olhos, pois o inimigo ainda está lá.
D. Francisco Xavier termina sua declaração, com um apelo à paz : "Somos vizinhos naturais dos ruandeses, burundeses e ugandeses. Somos chamados a viver juntos, na paz e na concordia nesta Sub-Regiâo, que Deus generosamente nos deu e nâo na guerra sem fim. Para que servem essas novas guerras, que apenas empobrecem nossos povos e criam inuteis inimizades ? ‘ Felizes os artesãos da paz ; eles serão chamados filhos de Deus’ (Mt 5,9). Jamais, jamais a guerra ! O mundo tem sede de paz "
Realmente a situação daquela região congolesa é bem problemática. De uma hora para outra podem entrar em guerra. Os tutsis são realmente guerreiros e fortes. Sobre eles, o bispo de Isangi, D. Camilo Lembi, nos revelou algo realmente interessante, para se entender a grande rivalidade entre tutsis e hutus, mesmo dentro do territorio congolês.
Em outra reportagem, vou dizer-lhes o que nos disse Dom Camilo.



Padre Mateus, scj, missionário

Lá pelos anos 1980 se falava em projeto missionário "ad extra" e se insistia na participação da Provincia brasileira. Com o intuito de viabilisar o projeto se designou Padre Silvino Kunz e Odilo Lewiski como exploradores da nova Terra ; se visualizava no momento o Zaire, hoje Congo.
Eu, então jovem padre, trabalhando na paróquia do Sagrado Coração de Jésus no Méier me disponibilizava como possível colaborador.
Foi assim que em 1984, partiamos os quatro primeiros apostolos da BM, em direção de Bruxellas, para o aprendizado da lingua francesa. Em Setembro do mesmo ano estavamos aqui em Kisangani para o que der e vier.
Minha primeira missão foi Babonde - Paroquia da diocése de Wamba. Aqui foi a primeira experiencia, por sinal bem amarga. A adaptação cultural não é evidente e aqui o missionário chora e desanima. Você se dà conta que não consegue fazer aquilo que faria no seu proprio país. Tudo é bem diferente e muito dificil. No entanto eu visitava as capelas do interior com alegria e ardor missionario. Na medida que aprendia a lingua Kiswahili o contato com o povo fazia-me gostar da experiencia.
Em 1986, o provincial me propunha a primeira transferência. Foi no momento em que vieram para o Congo P. Wilson, Airton e Gabriel. A Missão de Basoko recebia neste momento a ajuda de P. Airton e P. Mateus. Basoko é uma Paróquia de 100 capelas. As mais distantes se localizam a 150 Km do Centro. Naquele momento, as estradas congolesas eram jà impraticaveis. Razão pela qual a Provincia brasileira me ofereceu uma linda moto: Honda 125. Com este "cavalo" eu visitava as capelas do interior. Particularmente Mokaria, antiga paroquia, mas sem padres. Guardo saudades deste tempo em que visitava as capelas, animado do ardor apostolico paulino. Aprendi a relativisar muita coisa. O povo do interior me ensinava muito.
Em 1991 as vocações congolesas aumentavam em numero e se procurava um acompanhante para os postulantes et noviços que faziam a preparação para a vida religiosa nos Camarões... La fui eu para uma nova experiência, agora como formador. Me preparei meio ano na Europa para a nova missão. A terra que me acolheu nos Camarões foi Ndungue. Era, ao mesmo tempo, o pároco de Ndungue e acompanhava os postulantes. Là se passaram mais 6 anos de minha vida sacerdotal. Foi um vivendo e aprendendo.
Como as coisas se complicavam no Congo por causa da guerra, ficava igualmente cada vez mais dificil o envio de jovens congoleses para os Camrões. E assim se começou a pensar em fazer o postulantado no Congo.
Como conseguencia, em 1997, eu voltava para o Congo com o objetivo de conduzir nosso Postulantado. Ele funcionava em São Gabriel. Berço da Evangelização de nossa Provincia. Fiquei sendo um ano após igualmente o mestre de noviços. O trabalho feito com muito amor até o ano 2002.
Nesta ocasião, o Padre Wilson, reitor do Escolasticado Padre Dehon, partia para Butembo com o objetivo de construir nosso noviciado. Na mesma ocasião, voltava da Europa, o Padre Alberto Lingwengwe, que havia se preparado para ser o mestre de noviços.
Como padre Wilson partia, me confiaram o escolasticado, onde me encontro até hoje. No proximo ano, diga-se de passagem, com 38 estudantes de filosofia na casa. Isto vai pedir de mim coragem e dedicação, mas a certeza de que o mar está para peixe me faz lançar a rede.
P. Osnildo, saudações e um abraço.

P. Mateus

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