Pe Osnildo Carlos Klann, scj

Desde 2007, o padre Osnildo realiza sua missão dehoniana na República Democrática do Congo e, através de reflexões, notícias e informações, partilha suas experiências missionárias.

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segunda-feira, 28 de abril de 2008

Edição 21

Rumo ao leste congolês
3a. parte

Mambasa

Mambasa é uma pequena cidade, na Província (Estado) Oriental do Congo, a 140 quilômetros a norte de Beni e a 200 quilômetros de Butembo. A Província SCJ do Congo possui ali uma importante missão.
Por insistência do P. Silvano Ruaro, administrador daquela obra missionária, aproveitei a viagem do Superior Provincial, P. Vilson Hobold, com o norte-americano P. David Szakowski, para visitar Mambasa. Valeu a pena o sacrifício da viagem não muito confortável, por estrada péssima e com o carro cheio de passageiros e de mercadorias.
P. Vilson e P. David vieram de Kisangani, no pequeno avião russo que faz, há anos, esse trajeto Kisagani-Beni. Eu parti de Butembo, num carro fretado. Durante o percurso, Butembo-Beni, enfrentamos duas terríveis tempestades, com chuva de pedra, ventania, relâmpagos... Só pensava em nossos viajantes de avião. Realmente, eles sofreram muito para pousar em Beni. Tiveram de ficar rodando sobre a cidade durante ao menos 30 minutos para encontrar uma brecha entre as nuvens carregadas e descer apressadamente no aeroporto. Graças a Deus, deu tudo certo, apesar do susto.
As 15h30m do dia 21 de março, partimos de Beni rumo a Mambasa. Estrada péssima, mas transitável. Ao longo do percurso de 140 quilômetros, pequenos e pobres lugarejos, com casas de barro, cobertas de palha. É a constante e triste realidade do Congo. Muita gente pelo caminho. Principalmente crianças, maltrapilhas, inúmeras, sem conta, brincando em frente às suas casas, em terrenos, muitas vezes úmidos, sujos; convivendo com esgotos, a céu aberto, águas estagnadas, lameira.... Depois de 30 quilômetros, entramos na espessa mata equatorial do Congo. Mesmo no meio da floresta, encontram-se vilas e grupos populacionais.
Após 4 horas de sofrida viagem, chegamos, à noite, em Mambasa. Mesmo no escuro, tive uma ótima primeira impressão de nossa missão. Aqui também não há energia elétrica. Somente motor. Fomos fraternalmente acolhidos pela comunidade de lá. Nossos quartos não eram uma “brastemp”, mas muito bons e confortáveis.


Nossa missão de Mambasa

No dia seguinte, de manhã, fui visitar as dependências de nossa “missão”. Como sempre, as missões possuem muito terreno para suas obras. Aqui são 140 hectares, nos quais se encontram: igreja paroquial, moradia dos padres, escola de segundo grau, escola profissional, oficina mecânica, um hospital em construção, pastos para criação de gado, campo de futebol e de basquete, pistas de corrida, plantação de palmeiras, soja, banana etc. Como em outros lugares, também aqui a invasão de terras é muito comum. Muitas famílias jà moram dentro da propriedade da missão.Admirei muito a limpeza em redor da escola e mesmo as salas de aula, simples, com pobres bancos, mas em ordem, bem limpo tudo. Boa impressão! Além do curso normal, com 850 alunos, há a escola profissional, onde se ensina carpintaria, marcenaria, corte e costura, mecânica. São 58 professores que ganham aqui US 120,00 ( cento e vinte dólares). Coisa extraordinária para essa realidade. ( Em Kisangani, os professores estão ganhando 45 dólares, quando ganham). P. João Paulo, que estudou teologia na Faculdade Dehoniana de Taubaté, é o diretor da escola e dá um curso de administração e política, preparando os futuros lideres da cidade. Esse curso ele fez em São José dos Campos, SP.
Nossa missão de Mambasa administra duas paróquias: Nossa Senhora do Rosário, dentro da próprio terreno da missão e a paróquia Mãe da Igreja, que fica numa vila distante, chamada Nduye, onde se encontra a tribo dos pigmeus. Por muitos anos, P. Longo, italiano, evangelizou essa tribo e agora corre seu processo de beatificação. Foi morto em 1964, na rebelião dos simbas.
O diretor geral da missão é o P. Silvano Ruaro, dinâmico empreendedor e zeloso apostolo. Com a ajuda financeira de inúmeros benfeitores da Itália, principalmente, mantém essa obra de grande importância na promoção humana daquela cidade.


Epulu

No período da tarde do Sábado santo, fomos visitar o Centro de Conservação e de Pesquisa de Epulu, um dos nove parques e reservas naturais do Congo. Dista 70 quilômetros de Mambasa, na estrada que vai de Mambasa a Kisangani, em construção pelos chineses. A estrada que vai ligar essas duas cidades, distantes 550 quilômetros uma da outra, é muito boa e em breve estará completamente concluída, faltando apenas uns 70 quilômetros. Dentro de dois meses, segundo dizem, os chineses começarão a asfaltar essa via. Assim, Kisangani ficará ligada por estrada, com outras cidades. Pela primeira vez, no Congo, viajei a 80 até 90 quilômetros por hora.
Essa reserva natural é conhecida pela raridade que guarda: os “okapi”: girafa da selva. Seu pescoço é menor que o da girafa, seu corpo se assemelha muito a um cavalo e na parte traseira possui listras brancas como as zebras. Só comem alguns tipos de ervas, que deverão estar sempre no alto, porque eles não se abaixam para comer. Esses animais são naturais do Congo e alguns se encontram em zôos americanos e europeus. Estima-se em 10.000 a 20.000 a população de okapis nessa reserva, que possui 13.762 km2 . Outra grande característica desses animais: vivem sempre isolados.
O lugar é muito bonito, ao lado do rio Epulu, mas não tem ainda uma infra-estrutura turística. Falta restaurante, sanitários, loja de lembranças... Nada disso existe ainda lá. Espera-se que a abertura da estrada Kisangani-Mambasa possa trazer um pouco de turismo para esse rico e belo centro de reserva natural..


Vigília Pascal

Às 20 horas desse Sábado santo começou a vigília pascal na paróquia N.Sra do Rosário. A celebração foi fora, em lugar apropriado, bem preparado, cercado de palmeiras com bom serviço de som, bem iluminado e com um amplo palanque para o altar.
Naquela noite, ventava muito e foi uma luta manter aceso o Círio pascal até o fim da missa.
Foram quatro horas de celebração, com muitos cânticos, danças, leituras e um impecável serviço dos coroinhas e as conhecidas danças das “joyeuses” (as alegrinhas: crianças que dançam durante a missa). Chamou-me a atenção a qualidade das leituras bem feitas pela equipe litúrgica. Foram feitos 25 batizados, durante essa celebração.
Após a celebração, que terminou pela meia-noite, comemoramos um pouco a Ressurreição e fomos logo dormir porque, domingo de Aleluia, a missa é às 7horas da manhã. Viagem de volta
A missa do domingo durou apenas duas horas. Mas foi também muito bem participada e com muita gente inclusive.Às 13h30m partimos de Mambasa, sempre de camioneta, cheia de passageiros e de mercadorias. De novo, viagem muito desconfortável tanto pela aperto dentro do veículo, quanto pelos sacolejos do carro nos inúmeros buracos da estrada.

A viagem tornou-se até agradável, apesar de tudo, pelas jocosas “tiradas” do P. Vilson, que faziam rir a “bandeiras desfraldadas”, os passageiros da grande viagem de 7 horas até Butembo (Kiragho), onde chegamos pelas 20h30m.
Depois de gostosa janta, fomos logo dormir, agora no frio de Kiragho, não mais no calor de Mambasa. Nossa viagem de volta a Kisagani aconteceu no dia 25 de abril, no velho bimotor russo. Foi uma viagem muito tranqüila de 1hora 50 minutos.



Conclusão

Foi muito enriquecedora para mim, tanto espiritual quanto humanamente falando, essa viagem ao leste congolês. Conheci um Congo um pouco diferente, mas sempre sofredor, pobre, necessitado de tudo. Vislumbrei, na região, alguns sinais de progresso e de possibilidade de melhoria de vida. Mas o caminho a percorrer é ainda longo. É preciso, antes de tudo, mudar a mentalidade e abraçar a solidariedade, deixando de lado as lutas tribais e a disputa pelas riquezas e bens materiais que essa terra oferece.

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