Pe Osnildo Carlos Klann, scj

Desde 2007, o padre Osnildo realiza sua missão dehoniana na República Democrática do Congo e, através de reflexões, notícias e informações, partilha suas experiências missionárias.

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sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Ainda a guerra no leste congolês


Acompanho com tristeza e preocupação os acontecimentos do Leste congolês. Diariamente abro o site de Okapi para ver a evolução dos fatos.

Ontem, o Estado-Maior das Forças Armadas Congolesas (FARDC) fez veemente apelo, um ultimato, ao Grupo FDLR ( Força Democrática de Libertação de Ruanda) para obedecer às declarações de Nairobi (Kenia), voltando para casa (Ruanda) ou permanecendo na RD do Congo, mas como exilados e não como guerreiros. (Em Ruanda eles são perseguidos).

Esse grupo é constituído essencialmente de hutus e de antigos soldados revolucionários de Ruanda e de milicianos interahamwe, que combatem também contra o governo ruandês e provocam a desestabilização do Leste congolês.

O comunicado das Forças armadas da RD do Congo adverte que, se a FDLR nâo obedecer ao processo de Nairobi* terão que endurecer para restabelecer a estabilidade e a paz na região dos Grandes Lagos, com a ajuda das forças da Monuc (Missão da ONU no Congo).

O comunicado diz o seguinte: “ Tratando-se de grupos armados ruandeses, a FDLC e outros, o Estado maior das FARDC da Republica democrática do Congo com o precioso apoio logístico da MONUC, já deslocou, nesses dias, para as províncias do Norte Kivu e Sul Kivu, 11 batalhões de nossas Forças armadas, para restabelecer a autoridade do Estado e pôr em pratica o plano militar contra esses agrupamentos ilegais”.

O Leste congolês é um ninho de grupos guerreiros que disseminam o terror, o medo, a destruição naquela área, derramando muito sangue inocente, como exclamam indignados os bispos congoleses: “Até quando a nossa terra deverá ainda ensopar-se no sangue de seus filhos e filhas?”

Eles denunciam também com coragem o que está por detrás de todas essas lutas: encobrir o roubo dos recursos naturais do país e a exploração ilegal e criminosa de suas riquezas. Não temem os senhores bispos de pôr o dedo na chaga, apontando um plano desestabilizador da região: “balkanizar” o pais congolês pela criação de pequenos Estados como aconteceu na região dos Balkãs, na Europa. E com veemência, eles reagem: “A Conferência Episcopal nacional do Congo lembrará sempre que a integridade territorial, a intangibilidade das fronteiras e a unidade nacional da RD do Congo não podem ser negociadas”. Em sua declaração do dia 13 de outubro passado, os bispos condenam energicamente o nefasto e intolerável recrutamento de crianças para a guerra e tocam num outro ponto fundamental das relações humanas: nâo pode haver paz sem justiça. “A impunidade encoraja novas veleidades insurrecionais”. Não a justiça por aqui.

Em todo esse emaranhado de acontecimentos tristes e dolorosos, perpassa a onda nefasta da corrupção. É o que acabo de ler no noticiário de hoje (23.10): a assembléia nacional criou uma CPI para verificar os possíveis desvios dos fundos destinados para as tropas que lutam no Norte Kivu e a ajuda humanitária enviada para os refugiados de guerra. Infelizmente aqui a corrupção já está institucionalizada. Nada se realiza sem ela.

Que a paz habite em nossas fronteiras!

Kisangani, 24 de outubro de 2008

P. Osnildo Carlos Klann, scj
Foto: refugiados de Goma, cidade do leste congolês

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