Depois de ler a mensagem que me veio da Embaixada brasileira na RD do Congo, tentei telefonar para outro brasileiro, P. Vilson Hobold. Infelizmente, notei que não tinha mais créditos ( unités) em meu celular. Peguei, então, minha pequena mobilete e me pus a caminho.
As coisas pareciam diferentes, no percurso que fiz de uns cinco quilômetros. Olhava com atenção os buracos da estrada, para não cair neles, mas minha atenção estava voltada para outro lado. As pessoas me pareciam estranhas... Como sempre circulavam em grande numero pela estrada, ou em tolekas (bicicletas-taxi) ou a pé ou de moto ou, poucos, de carro. Tinha a impressão que todos viviam o mesmo momento de preocupação que eu, e corriam depressa para as suas casas, procurando segurança..
Pela primeira vez, em minha vida, me senti dessa maneira. Sensação estranha, num país estranho. O pensamento voava longe e tentava responder: como fazer se, de fato, o previsto pela embaixada acontecesse? Aonde ir? Onde esconder as coisas mais necessárias? Como ajudar o povo? Qual seria minha reação diante de uma realidade assim?
Nesse ínterim, cheguei à casa do provincialado, perto do centro da cidade. Encontrei o P. Vilson. Li para ele a mensagem. Ele me tranquilizou. É preciso guardar a calma e esperar o desenrolar dos acontecimentos. Telefonamos para outro brasileiro, P. Mateus, que estava de aniversário naquele dia. Depois de parabenizá-lo, li para ele a mensagem da embaixada: “Devido os recentes acontecimentos no leste da RD do Congo, o Ex.mo Sr. Embaixador do Brasil recomenda que ultimem estoques de alimentos e preventivamente arrumem suas malas conforme recomendado pela equipe de segurança” . Do outro lado da linha, o aniversariante só deu uma gostosa gargalhada e disse: “nós já estamos acostumados a essas cosias! Não se preocupe!”
Esse diálogo me tranquilizou; as notícias que acabava de receber do leste congolês eram alarmantes: os revolucionários tinham entrado já na cidade de Goma e a população estava fugindo em massa.
Dia seguinte veio outra noticia: o general revolucionário Nkunda não entrou ainda na cidade de Goma, importante centro comercial do leste congolês. Está a uns quinze quilômetros distante, mas o exército congolês, como sempre, já se pôs em fuga, ficando só as tropas da ONU na cidade para defender quem lá ficasse. Infelizmente o exército da ONU é pequeno para conter o avanço das tropas revolucionárias.
Enquanto isso, os grandes desse mundo se reúnem na ONU, em Nova Yorque, para discutir o que fazer. Como tem muitos interesses em jogo, não tomam decisão urgente para ajudar o povo. Vão fazer nova reunião, penso, amanhã, para não resolver, de novo, nada. E o povo continua fugindo, perdendo tudo, sendo violentado, espoliado, deixando pelos caminhos por onde passa, com seus míseros pertences, a esperança de dias melhores, de paz e de prosperidade que os políticos sempre prometem em tempos de eleições.
Não posso compreender como as nações fiquem indiferentes diante dessa tragédia humana. Se fosse para proteger a vida de algumas focas ou alguns animais haveria uma movimentação intensa de todas as partes, para salvá-los (o que seria justo). Mas para salvar milhões de vidas humanas não se tem muita pressa.. E se fica indiferente.
Não consigo entender também como é possível que a estúpida ganância de poder de um general tutsi se impõe tão descaradamente diante das autoridades do mundo inteiro, desafiando-as. Certamente atrás desse general que recebe ajuda exterior, há muito interesse mesquinho, talvez de grandes nações. A RD do Congo não cessa de acusar o vizinho pais Rwanda de patrocinar essa guerra, com o intuito de alargar suas fronteiras.
No dia de hoje, informa-se que há um cessar-fogo, mas a cidade de Goma está praticamente paralisada. Nada funciona: escolas, comércio, indústrias. Nkunda está lá pronto para se apossar dela e de outras cidades também. Que Deus nos livre desse revolucionário tutsi!!!
Nós aqui, em Kisangani, estamos ainda em paz, mas isolados. Por causa da guerra no leste, não temos mais comunicação aérea com a capital Kinshasa. Dificílimo também viajar para qualquer outra cidade do interior. Para o leste, nem pensar.
Voltando à mensagem da embaixada, louvo e agradeço a preocupação de nosso embaixador pela segurança dos brasileiros daqui. Mas partir, certamente a gente não iria, nessas circunstâncias. É preciso ficar com o povo!
Kisangani, 31 de outubro de 2008
P. Osnildo Carlos Klann, scj
Pe Osnildo Carlos Klann, scj
Desde 2007, o padre Osnildo realiza sua missão dehoniana na República Democrática do Congo e, através de reflexões, notícias e informações, partilha suas experiências missionárias.
Para entrar em contato, escreva para ocklann@yahoo.com.br
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