
Estamos na estação das chuvas. Aqui, como no Norte e Nordeste brasileiros, há apenas duas estações: a estação seca e a estação das chuvas. Kisangani para, quando chove. Os negócios não abrem, porque não há compradores. Os trabalhadores não vão ao trabalho, porque não têm como enfrentar a chuva. O mercado central e as vendas em cima das calçadas desaparecem. A energia elétrica é cortada. Portanto não se pode trabalhar com aparelhos elétricos nem eletrônicos, como por exemplo, fábrica de móveis, serraria, fábrica de bebida.... ( Estou escrevendo essa crônica, em meu laptop com bateria). As crianças não vão á escola, porque não têm guarda-chuva. Com chuva, tudo para aqui.
Para dizer a verdade nua e crua, a RD do Congo é um pais em falência. Certamente as guerras e a corrupção levaram a isso. Não temos estradas. Meios de transporte precaríssimos. Além da falta de estradas, outro setor em falência é a educação. Professores mal pagos; alunos impossibilitados de pagar a “prime” (mensalidade), prédios em lamentável estado de conservação, alunos das escolas publicas sem livros e muitas vezes, sem cadernos; salas de aula, sem quadro negro, sem giz, sem bancos... tudo isso revela o estado de degradação a que chegou a educação nesse país.
Nem vou falar de novo, da saúde, da higiene publica, das moradias, das ruas das cidades...
Com a guerra no leste, os preços dos alimentos e de outros produtos foram para as estrelas. Um saco de cimento, que no leste custa aproximadamente 15 U$ ( quinze dólares), e no pais vizinho, Rwanda, 6 U$ (seis dólares); aqui em Kisangani, custa 50 U$ (cinqüenta dólares). Nós estamos aumentando o centro D. Grison. Como poderemos continuar a construir com esses preços? Um saco de feijâo custa “apenas” 170 U$ (cento e setenta dólares).Deveria ser o alimento dos pobres!!!
E a guerra no leste continua. Noticias diárias dão conta que as populações daquela região vivem ainda o drama dos saques, das mortes, das perseguições, dos tiroteios. Os revolucionários, um reduzido número de militantes, fazem a guerra das guerrilhas. O exército congolês é impotente para deter o avanço dos comandados de Nkunda; a Monuc ( Missão da Onu no Congo) também não consegue proteger toda a população. O grupo Pareco ( Patriotas resistentes congoleses) entra também na guerra para defender a população, mas não resiste igualmente. Enquanto isso, os grandes se reúnem em discussões intermináveis, com vultosos gastos de viagem, hotel, diárias, e não chegam a nenhuma conclusão. Os dois presidentes de Rwanda e da RD do Congo, há dias, se reuniram em Nairobi ( Quênia), para tratar do assunto da guerra; até agora, apesar de ter procurado, todos os dias, noticias da reunião, não encontrei nada. Não sei o que aconteceu nessa reunião; ou se aconteceu algo de importante. Tem-se a impressão que eles não querem acabar com a guerra. Há muitos interesses econômicos atrás de tudo isso.
Domingo ultimo, o Papa, no Angelus do meio-dia, fez um veemente apelo pela paz na RD do Congo, manifestando sua preocupação pelas numerosas vitimas desses sangrentos confrontos, e denunciando as sistemáticas atrocidades cometidas contra a inocente população civil do leste congolês. Segundo o Papa, mais de um milhão e meio de refugiados já tiveram de abandonar suas casas, vivendo agora em situação precaríssima, segundo o testemunho do enviado da Onu, para a manutenção da paz.
A Igreja está seriamente empenhada em ajudar os refugiados,especialmente a Caritas espanhola, Caritas congolesa e a Caritas internacional.
Também as congregações religiosas estão sensibilizadas e desejam colaborar na ajuda humanitária às populações do leste congolês. Em conversa, via skype, com o P. Cláudio Weber, conselheiro geral de nossa Congregação, domingo passado, soube que P. Ornelas, nosso superior geral, ,convocou uma reunião,para essa quarta-feira, com todos os superiores gerais de Roma, que possuem religiosos trabalhando na África, para tratar do trágico problema congolês. É evidente que não poderão terminar com a guerra. Mas vão manifestar e oferecer sua solidariedade ao sofrido povo do leste congolês e chamar, mais uma vez, a atenção dos responsáveis, para desenvolverem reais esforços em busca de uma solução diplomática, estável, para essa guerra.
Que venha a paz para a nossa nação!
Apesar de todos esses problemas, vale a pena estar e trabalhar aqui. Não se pode resolver todos os problemas. Mas ao menos pode-se colocar uma gota d´água na fervura dessa geral situação de sofrimento.
Kisangani, 11 de novembro de2 008
P. Osnildo Carlos Klann, scj
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