Pe Osnildo Carlos Klann, scj

Desde 2007, o padre Osnildo realiza sua missão dehoniana na República Democrática do Congo e, através de reflexões, notícias e informações, partilha suas experiências missionárias.

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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Muchapa

Meus amigos (as), estive fora do ar, alguns dias, por causa de problemas técnicos. Estou de volta. Envio-lhe uma curta crônica de meu domingo. São as coisas simples que acontecem aqui conosco. Não temos grandes feitos. Apenas as coisas miúdas de cada dia. Em relação à guerra, tudo está em banho- maria. Tenho a impressão que não há interesse em terminar com essa guerra. Um jornal lá do leste que sai uma vez por mês, critica a ONU dizendo que ela não está interessada em acabar com essa guerra. Não sei se essa opinião é válida, mas na realidade, as coisas não evoluem. Obrigado pela sua atenção e amizade.

Muchapa
Como sempre, o “piroguier” chegou com uma hora de atraso. Já estava impaciente, pensando que não viria mais, como aconteceu no primeiro domingo deste mês. Prometeram e não vieram me buscar.
Muchapa é o nome do bairro. O nome é homenagem ao antigo chefe daquele povoado. O patrono da capela é Santo Afonso. Capela e lugarejo paupérrimo. Pouca gente na missa. Mas cantam que é uma beleza. Resultado da coleta: 540 francos congoleses. Nem um dólar. Gastei 3 dólares para atravessar o rio.
Após a missa, fizeram uma partida de futebol em minha homenagem.. Levei a bola. Poucos minutos apenas. O campo, em péssimas condições, chamam de estádio. Entre um tempo e outro, fui almoçar. Um pouco de arroz com um pedacinho de peixe defumado. Ganhei um ovo de galinha. Pedi para cozinhar. Misturei com o arroz. Estava muito gostoso, apesar de tudo frio.
O bairro fica do outro lado do Rio Congo, na margem esquerda. A uns 4 quilômetros daqui. Para ir, 45 minutos; para voltar, rio acima, 1 hora e meia. Na ida fui sozinho na piroga ( canoa). Era grande. Viagem calma. Na volta, viria também sozinho numa grande piroga, quando, na hora da partida, apareceu uma outra piroga, imensa, já cheia de passageiros, sentados no chão da canoa, homens, mulheres, crianças e mais uma carga imensa de cestas enormes com mandioca, folha de aipim, carvão etc. Ela estava indo também para o outro lado do rio, na região do mercado Spirro, perto de nossa igreja. Para não viajar com duas canoas, me colocaram no último lugarzinho que sobrava da canoa que estava partindo. Sentado numa cadeirinha de palha, lá fui eu, com muito medo, naquela imensa canoa, cheia de passageiros e de carga. Viagem lenta, pois era preciso subir o rio. Sobe-se pela margem esquerda, sempre bem perto da costa. Dois remadores: um na frente outro atrás. Vigorosos jovens. O de trás empurra a canoa; o da frente dirige, evitando que a canoa bata nas margens do rio. Enquanto se navega pela costa, é agradável, porque sempre à sombra dos arbustos e árvores. A certa altura da viagem, começam a atravessar o rio. A correnteza é forte e nos arrasta. Os remadores fazem esforço redobrado e ritmado para controlar a embarcação. Num momento de pausa, no remo, o jovem da frente refresca seu rosto na água do rio; lava-se; tira o abundante suor que lhe escorre pela face e sem nenhum constrangimento ou medo toma abundantes goles de água do rio, que não é tão limpo assim. E para surpresa minha, repete a cena quando já estamos bem perto da outra margem, onde a água é bem poluída. Lembrei-me, então, de um fato ocorrido com um velho missionário belga, de 87 anos, que ainda vive, P. Mondry. Ele viajava com o P. Dino Ruaro, no interior da RD do Congo, quando aqui ainda havia algumas estradas. A certa altura, P. Mondry pediu para parar o carro, à beira de um riacho. Desceu, foi ao riacho e bebeu da água suja. P. Dino, atônito, lhe perguntou: - Padre, não tem medo de beber dessa água? Ah! - respondeu o velho missionário - bebi água limpa e me fez mal; bebo da água suja e não me faz mal!
Cansado, mas muito contente, voltei para meu quarto. Mais um dia de missão. Não ganhei nada materialmente, mas senti-me feliz em poder dar algum conforto espiritual e alegria àquela pobre gente!
Mais feliz ainda fiquei quando, hoje, segunda-feira, enquanto estou aqui, em meu escritório, escrevendo essa crônica, recebo a visita do chefe da capela de Muchapa e de um garotinho de lá, perguntando como foi minha viagem de volta. Em geral, eles entram aqui, somente para pedir algo. E os dois vieram perguntar como foi minha viagem de volta! Que bonito!

P. Osnildo Carlos Klann, scj
Kisangani, 17 de novembro de 2008

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