Pe Osnildo Carlos Klann, scj

Desde 2007, o padre Osnildo realiza sua missão dehoniana na República Democrática do Congo e, através de reflexões, notícias e informações, partilha suas experiências missionárias.

Para entrar em contato, escreva para ocklann@yahoo.com.br

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Edição 19

Meus amigos e amigas, estou-lhes enviando em anexo a primeira parte de meus artigos sobre minha viagem ao leste congolês. Faço por partes para não se tornar longo demais. E de desagradável leitura. Infelizmente, não lhes posso, por enquanto, enviar fotos, pois minha maquina fotográfica foi danificada ( abîmé), como se diz aqui, e não pude tirar nenhuma fotografia. Mas uns senhores italianos que passaram por lá fizeram muitas fotos e deixaram tudo no arquivo do computador de um colega meu aqui de Kisangani, que não teve ainda tempo de me fazer copia. Por isso, o atraso. Boa leitura e se quiserem fazer algum comentário ou algum pedido estou às ordens.
Um abraço. P. Osnildo

Rumo ao leste congolês
1ª parte

Finalmente, chegou o dia de sair um pouco de Kisangani. Desde que aqui cheguei, em 7 de março do ano passado, não tive oportunidade de conhecer outras cidades, alem de passar rapidamente pela capital Kinshasa, na minha chegada ao Congo. Por enquanto, não temos comunicação, por terra, com outras cidades. Aliás, pode-se chegar a outras vilas ou com moto ou bicicleta ou a pé.

A viagem

Dia 15 de fevereiro, parti para o leste congolês. Estava, de fato, muito curioso por conhecer a cidade de Butembo, sobre a qual me falavam muito positivamente, por ter uma geografia bem semelhante à do nosso Estado de Santa Catarina: montanhas, gado, pastos, bananais, temperatura baixa etc.
Fui o primeiro a embarcar no velho bimotor russo, de 18 passageiros, com malas empilhadas no corredor, apertando-me contra a parede do avião, forrada de surrados tecidos escuros. Da pequena janela, não se podia enxergar nada tanto por causa da neblina, quanto pelo vidro todo embaçado .
O vôo de 1hora e 50m foi bem tranqüilo. O pequeno aeroporto, sem asfalto, fica em Beni, cidade vizinha de Butembo. O avião parou bem ao lado do portão do pavilhão de madeira do aeroporto. As malas foram entregues ali mesmo.
Nicolas, o chofer do noviciado de Butembo, esperava-me lá com sua moto. Antes de sair, foi preciso passar pelo serviço de imigração, onde uma burocracia ultrapassada, mais uma vez, exigia o passaporte, de onde tiravam as informações que eram escritas, a mão, num grosso caderno. Além do tempo perdido, tive de pagar US 5.00 (cinco dólares), para entrar no leste congolês.
Eu e uma mala fomos na garupa da moto de Nicolas.. A outra mala pegou carona numa outra moto, para ir até o “parking”, estacionamento dos táxis da cidade.
Esperei muito tempo até completar a lotação do táxi: quatro pessoas atrás, mais uma criança e eu, na frente, ao lado esquerdo motorista, porque aqui, muitos carros têm o volante na direita.
De Beni a Butembo são 55 quilômetros. Logo ao sair da cidade começamos a subir a serra. A estrada se assemelha muito àquela entre Botuverá e Vidal Ramos: cheia de curvas, poeira, pedras e mesmo precipícios. Os bananais, trepados nos morros, dão a impressão que estou indo de Corupá a São Bento do Sul. Ainda mais que é subida da serra !!
A viagem se tornou agradável pelo espírito extrovertido de uma moça que se sentava no banco de trás, no colo de um moço, porque não havia lugar suficiente para 4 pessoas.
Ao longo do caminho vi o que até agora não havia visto no Congo: uma intensa movimentação de carros, caminhões, motos, trazendo e levando mercadorias, de uma cidade a outra. Era um sinal de progresso e de vida dessa região, que fica perto de Uganda, para onde se deslocam muitos congoleses para fazer compras e vender suas mercadorias.
Mas não faltam também, ao longo do caminho, as tolekas e as motos ou com mercadorias : banana, abacaxi, lenha, carvão, roupas, maracujás, óleo, combustível e tudo o que você pode imaginar de produtos simples da terra, ou com passageiros, na garupa.
Como nossos ônibus, no Brasil, fazem suas paradas, ao longo da viagem, assim também, nosso táxi parou num pequeno “marche”, ao ar livre. Logo que o táxi parou, uma enxurrada de pessoas, grandes e pequenas, crianças e jovens, mulheres e homens cercaram o carro, oferecendo seus produtos : balaios estreitos e longos cheios de maracujá (pequenos e roxos), banana, tomate, abacaxis e outros produtos da terra. Na primeira parada, não comprei nada. Na segunda, por insistência da moça de trás, comprei bananas e maracujás. Preço de tudo : 1.000 francos congoleses ( = 2 dólares).
As casas ao longo do caminho são ainda de bambu e barro, uma grande parte já se apresenta bem melhor com cobertura de zinco e paredes de tijolos.
Após duas horas de viagem, aos trancos e solavancos, entramos em Butembo.

Butembo

Cidade de 800 mil habitantes, segundo informação que me deu um comerciante de là, não tem asfalto nem energia elétrica.(NB. As estatísticas daqui não são muito confiáveis). Mas possui um comercio muito movimentado, onde se pode comprar produtos vindos de outros paises, como da China, de Uganda, da Arábia, de Dubai… por preço insignificante ; mas sempre estamos sujeitos a produtos piratas. Mesmo sem energia elétrica publica, à noite, o centro da cidade está iluminado, pois os moradores têm geradores elétricos.
Chamou-me imediatamente a atenção o numero de casas em construção. Casas boas, de tijolos, telhados galvanizados, belas pinturas. Além disso, muitos carros e bons carros, circulando pelas ruas poeirentas e movimentadas da cidade, que nâo possui um plano diretor e as construções são feitas ao bel prazer dos cidadãos. Vejo nesses sinais a presença da classe média surgindo, no Congo.
Outra particularidade : muitas e grandes igrejas católicas. Uma nova igreja recentemente construída, têm lugar para 5.000 pessoas, segundo informação que me deram.
O clero secular dessa diocese Butembo-Beni é numeroso : são 200 “abbés”, como são chamados os padres seculares daqui, dos quais, aproximadamente 35 estâo fora da diocese, ou estudando ou em missão, inclusive, na Itália, ou prestando serviços, como no Vaticano.
Não só o clima é diferente. Também a mentalidade do povo: eles têm iniciativas, trabalham bastante. São pobres também, mas não têm o hábito de pedir tudo. Não esperam por ajuda de outros, dos padres, por exemplo. Eles mesmos se cotizam e constroem e compram as coisas para a Igreja. Possuem um grande sentido da “prise en charge”, como se diz aqui, isto é, se responsabilizam pelas coisas da Igreja.
Butembo está a 1.600 metros acima do nível do mar. O clima é frio, durante todo o ano, e chove bastante.
Está situada numa das mais ricas regiões do país. Fica no Estado de Nord Kivu, limitando-se a leste com Uganda e Ruanda, dois paises que, durante a guerra dos seis dias, no Congo, em 2000, lutaram entre si pela posse dessas terras congolesas. O falecido presidente congolês, Kabila, pai, havia pedido a ajuda militar desses dois paises para derrubar Mobutu. Depois da vitória, os dois exércitos vizinhos ficaram aqui e brigaram entre si, pela posse da terra. A intervenção da ONU pôs fim ao conflito. Mas a tensão e o medo de novos conflitos, na região, continua até hoje, pois hà um ex-general do exercito congolês, Nkunda, um rebelde refugiado em Ruanda, que, com o apoio desse pais, faz incursões guerreiras nessas áreas, principalmente, em Goma, Bukavu e Massisi.
Recentemente, foi feita uma conferência de paz e de desenvolvimento dessa região. Oficialmente, chegou-se a um acordo. Na prática, porém, as constantes incursões dos rebeldes na região revelam que a situação de guerra continua ainda. Pois o general rebelde exige como condição de paz que o Congo expulse de seu pais todos os hutus.(NB entra aqui a eterna rivalidade entre tutsis e hutus, dos quais falarei num próximo artigo).
Além desses problemas, essa região era infestada por bandidos do grupo Mayi-Mayi, um tipo de cangaceiros, que atacavam a populaçâo, roubando, matando, pilhando as casas. Por enquanto, estão eles mais calmos, escondidos, com a presença do exercito da ONU. Mas quando as tropas da MONUC (missão da ONU no Congo) se retirarem nâo sei o que poderá acontecer.
As 18h 30, chegamos ao fim da viagem, em nosso noviciado de Kiragho (pronuncia-se Tchirao). Estava cansado. Mas contente e cheio de expectativas pelos próximos dias em Butembo.

Sobre nosso noviciado e sobre os dias que ali passei, escreverei na 2ª parte desse artigo.

Um comentário:

jmanoel disse...

Habari gani, mupe Osnildo.Que surpresa e que alegria ao encontrar este blog e saber de sua estadia nessa bela e sofrida Kisangani. Dê um abraço a todos, em especial aos brasileiros. Guardo excelentes recordações dessa terra e desse povo.
José Manoel

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